4. INTERNACIONAL 19.6.13

1. O BIG BROTHER DO OBAMA
2. A RAPOSA QUE V O FUTURO
3. NO SULTANATO DE ERDOGAN
4. A AL QAEDA E OS EUA ALIADOS?

1. O BIG BROTHER DO OBAMA
A intrigante histria do agente americano que revelou a espionagem de centenas de milhes de pessoas comuns pelos EUA tirou, por ora, os holofotes do presidente.
DIOGO SCHELP

     Entre as muitas teorias conspiratrias sobre o que ocorre nos bastidores do poder nos Estados Unidos, talvez a mais persistente e amplamente aceita seja a de que o governo americano mantm ou tem a capacidade de manter cada cidado do mundo sob constante vigilncia. Nas ltimas duas semanas, ficou provado que a realidade  bem prxima disso. Mais: o presidente Barack Obama, eleito com a promessa de rever e dar mais transparncia  maneira como so aplicadas as leis de coleta de dados por rgos de inteligncia aprovadas por seu antecessor, George W. Bush, no apenas no honrou a palavra como est expandindo a burocracia estatal dedicada a espionar os cidados. A Agncia de Segurana Nacional (NSA, na sigla em ingls) do governo americano, segundo revelaram reportagens dos jornais The Guardian, da Inglaterra, e The Washington Post, dos Estados Unidos, recebe diariamente um inventrio de todas as ligaes telefnicas dos clientes da Verizon, a maior operadora de celular do pas, e recolhe, junto a nove das principais empresas de internet do mundo, uma compilao mastodntica de e-mails, arquivos, informaes de perfis de redes sociais e outros dados privados on-line. Isso significa ter acesso quase em tempo real ao que fazem  com quem, como, onde e quando  centenas de milhes de pessoas. A maioria, evidentemente, nunca deu razo alguma para ser investigada ou ter sua privacidade violada. A Casa Branca defendeu-se dizendo que, na internet, monitora somente estrangeiros. A justificativa apenas serviu para causar mal-estar com governos aliados. A ministra da Justia da Alemanha, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, rebateu: "Quanto mais uma sociedade monitora, controla e observa seus cidados, menos livre ela ".
     Com seu governo acossado por um grande escndalo por semana desde maio, Obama s escapou um pouco dos holofotes quando, na semana passada, o responsvel por vazar os segredos da NSA saiu do anonimato em uma entrevista em vdeo em um hotel em Hong Kong. O americano Edward Snowden, de 29 anos, tinha uma posio modesta na hierarquia da espionagem americana. Um nerd da informtica introvertido e por algum tempo bastante ativo em fruns on-line em que se discutia, entre outras coisas, a privacidade na rede, ainda assim Snowden foi contratado na NSA. Depois de uma passagem pela CIA, o servio secreto americano, ele se tornou funcionrio da Booz Allen Hamilton, uma empresa privada que presta servios de segurana para o governo. Recentemente, foi transferido para o Hava para atuar como especialista em computao de uma unidade da NSA, segundo ele com um salrio de 200.000 dlares por ano. Em pouco tempo, conseguiu reunir em um pen drive milhares de arquivos secretos e, h um ms, pediu licena no remunerada e nunca mais voltou. "Eu no quero viver em um mundo em que tudo o que eu fao ou digo  gravado", disse Snowden ao Guardian. 
     To logo ele deu as caras em Hong Kong, comearam as especulaes sobre o que o motivou a vazar os segredos americanos, pelo que pode ser condenado  priso perptua por traio. Sua disposio de se tornar um fugitivo parece ainda mais incompreensvel considerando-se que ele deixou para trs uma namorada linda e atltica, com quem pretendia se casar. Lindsay Mills, de 28 anos,  craque nas apresentaes de pole dance, a modalidade de dana sensual ao redor de um cano vertical cujo efeito modelador sobre o corpo ela adorava exibir em fotos seminuas no seu blog. Snowden disse que viajou sem contar a ela que nunca mais voltaria ou para onde ia. Ainda mais intrigante foi a deciso de Snowden de se refugiar em Hong Kong, que tem acordo de extradio com os Estados Unidos. Ele diz que confia na tradio de livre expresso da ex-colnia inglesa, devolvida  China em 1997 com a condio de que seu sistema legal fosse mantido por cinquenta anos. A escolha por esse refgio deu margem a uma teoria conspiratria dentro da conspirao. Afinal, se est to seguro do seu refgio chins, no estaria Snowden a servio de Pequim? A suspeita apenas se acentuou com a sua entrevista a um jornal de Hong Kong, em que revela que hackers do governo americano monitoram computadores de universidades e de servidores de internet chineses. A denncia veio num momento curioso, apenas poucos dias aps um encontro entre Obama e o presidente Xi Jinping, no qual o americano reclamou  que a China est patrocinando a invaso de computadores dos Estados Unidos para roubar informaes militares. 
     Sejam quais forem seus motivos, o fato  que as revelaes de Snowden incitaram uma discusso relevante para as liberdades individuais nos Estados Unidos. O general Keith Alexander, diretor da NSA, garantiu ao Congresso na semana passada que dezenas de atentados terroristas foram evitados com a anlise de informaes dos dois programas denunciados por Snowden. Mesmo que isso seja verdade, a falta de controle pblico deixa brecha para que um presidente mal-intencionado use as informaes telefnicas e on-line para espionagem eleitoral e para pressionar grupos opositores  algo, alis, que o governo Obama tem feito por meio do IRS, a Receita Federal americana. Sua administrao parece disposta a expandir a vigilncia em massa dos cidados, pois est construindo um centro de dados da NSA no estado de Utah, ao custo de 1,2 bilho de dlares, cujos computadores tero capacidade de memria de 5 trilhes de gigabytes, suficiente para guardar todas as informaes digitais produzidas em mais de dois anos no mundo. O Big Brother do Obama  cada vez mais onipresente.


2. A RAPOSA QUE V O FUTURO
Estatstico mais festejado dos EUA pelas previses matadoras, Nate Silver tinha tudo para cumular de lisonjas a era do Big Data. Em vez disso, seu livro  uma brilhante defesa da cincia e da sensatez.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     Aos 35 anos, Nate Silver j trabalhou como consultor na KPMG ("Era um saco"), inventou um modelo estatstico para antecipar o desempenho de jogadores de beisebol, viveu dois anos da renda auferida nas mesas de pquer (ganhou 400.000 dlares, perdeu 150.000 e caiu fora) e criou um blog para fazer previses eleitorais  e a nasceu uma estrela. Em 2008, ele acertou o resultado da eleio presidencial em 49 dos cinquenta estados. Errou apenas em Indiana, que Barack Obama levou por 1 ponto percentual. Transformado em celebridade, Silver virou o orculo das urnas, figura fcil nos programas de TV e seu blog, FiveThirtyEight (538, em referncia ao nmero de votos no Colgio Eleitoral), passou a ser hospedado na pgina virtual do New York Times.
	Na eleio do ano passado, Silver trabalhou debaixo de pancada. Enquanto as pesquisas indicavam disputa apertadssima entre Obama e Mitt Romney, e o Gallup dizia que ganharia o republicano, Silver passou meses garantindo que as chances de Obama ser reeleito eram da ordem de 90%. Ganhou de novo. Acertou o resultado da disputa presidencial em todos os cinquenta estados. Suas previses ficaram perto at da primeira casa decimal. Cravou que Obama teria 50,8% dos votos (teve 51,06%) e Romney, 48,3% (deu 47,21%). A imprensa americana passou a trat-lo por superlativos: "deus pago das estatsticas", "heri dos nerds", "feiticeiro dos nmeros". 
     Depois de fechadas as urnas, seu livro, lanado um ms e pouco antes da eleio, disparou na lista dos mais vendidos do New York Times e da Amazon. E comeou a ser lanado em diversos pases  com a notria exceo da Frana. (Segundo o jornal Le Monde, a ideia de que um estatstico possa anunciar de antemo o resultado de uma eleio " bizarra e atentatria  imaginao poltica francesa".) Agora, o livro chega ao Brasil, sob o ttulo O Sinal e o Rudo (traduo de Ana Beatriz Rodrigues e Cludio Figueiredo; Intrnseca; 39,90 reais, ou 24,90 na verso eletrnica). So 544 pginas de densidade. Como estatstico das massas, como a raposa capaz de enxergar o futuro, Silver parecia predestinado a escrever um livro triunfalista, festejando os milagres da era do Big Data, em que, segundo a IBM, produzimos 2,5 quintilhes de bytes de informaes por dia. Em vez disso, o livro  sbrio, sensato  e brilhante. Conta como as previses evoluram ou deixaram de evoluir em diversos campos da atividade humana, das finanas s epidemias, dos terremotos ao pquer. Narra sucessos e fracassos, e no se cansa de sublinhar que a boa previso no pode carregar nossas preferncias. "Os nmeros no falam por si. Ns falamos por eles", diz. Tudo considerado. O Sinal e o Rudo  um manifesto em defesa do progresso da cincia e uma homenagem ao valor do julgamento humano, superior  mquina  e, se quisermos,  um repdio ao niilismo. 
     Na semana passada, Silver recebeu VEJA no 4 andar de sua editora americana, a Penguin. Ele tem 1,75 metro de altura, os cabelos ralos e desgrenhados, e personifica a imagem do nerd: olha mais para baixo do que para o interlocutor, como se falasse consigo mesmo, gesticula de modo atabalhoado, com unhas exibindo um visvel desprezo pela higiene, e intercala suas frases com risadas curtas, como um pigarro  e, escrupulosamente, no se cansa de esclarecer que no sabe mais do que sabe. 

Na era do Big Data, h autores dizendo que o desejo humano de buscar as causas ser substitudo pelas correlaes, to fartas quando h abundncia de dados. Ou seja: se a correlao nos informa sobre a ocorrncia de certo fenmeno, para que saber a causa? 
Sou ctico. Quando h fartura de dados, h fartura de relaes aleatrias. Dou um exemplo. Durante anos, houve uma correlao entre o time de futebol americano que ganhava o Super Bowl e o desempenho do mercado financeiro. Algumas pessoas at comearam a acreditar que era verdade. Em 2008, os Giants, de Nova York, ganharam o campeonato. A vitria deveria ser um bom pressgio para o mundo das finanas. Como se sabe, o mercado entrou em colapso. Nunca mais a correlao se deu. Eu adoraria achar um jeito de apostar contra quem acha que vamos nos satisfazer com correlaes sem conhecer as causas. 

Tambm se diz que o Big Data, produzindo mais dados do que somos capazes de interpretar, vai acabar matando o mtodo cientfico de criar uma hiptese e test-la na realidade. Seria o fim da teoria. 
Tambm no acredito. E espero que no acontea. Precisamos de hipteses. O bom sobre o acmulo de dados  que podemos testar mais hipteses, de modo mais rpido e, s vezes, mas nem sempre, de modo mais rigoroso. Precisamos do mtodo cientfico. 

O Big Data tem muitos dados no estruturados, o lixo on-line. A quantidade neutraliza a falta de qualidade? 
No existe quantidade de dados capaz de compensar a falta de qualidade, e vice-versa. Cinco observaes muito benfeitas, de alta qualidade, provavelmente no so suficientes para fazermos generalizaes. Precisamos das duas. 

O Big Data j est produzindo benefcios e progressos? 
Ainda no. As inovaes levam um tempo para decantar. O computador surgiu nos anos 70, mas levamos vinte anos para descobrir o que, de fato, ele pode resolver para ns e o que no pode. S ento comearemos a ter ganhos de produtividade. 

Quanto tempo levar at que o Big Data produza benefcios concretos? 
Acho que ainda levar uma dcada, mais ou menos. Em parte, porque h uma escassez de profissionais para a rea. S agora as universidades esto comeando a formar os novos profissionais. 

     Em O Sinal e o Rudo, o leitor ficar sabendo dos imensos progressos ocorridos nas previses meteorolgicas (as melhores so as que associam os clculos dos supercomputadores com o julgamento dos meteorologistas) e da quase impossibilidade de prever a ocorrncia de um terremoto, mesmo dos mais devastadores, como o de Fukushima, em 2011. O captulo dos fracassos mais retumbantes, porm, fica para as previses econmicas, sobretudo das agncias de classificao, como Standard & Poor's e Moody's, que fizeram um papelo na crise financeira de 2008. Silver conta que, nos anos 90, os economistas previram apenas duas das sessenta recesses ocorridas no mundo. Rememora que, em 2007, quando os economistas reunidos num painel do Wall Street Journal diziam que a probabilidade de os EUA entrarem em recesso era de apenas 38%, o pas j estava em recesso. 

Ruins para prever o futuro, os economistas no so bons nem para observar o presente? 
Os dados brutos de que os economistas dispem no so muito bons. H milhares de estatsticas econmicas, mas  difcil medir certas coisas, como a renda anual das pessoas. Esse  um ponto. A outra dificuldade  que a economia global, cada vez mais complexa,  como um alvo em movimento. Mas, por trs da crise financeira, houve falhas estatsticas srias. At 2007, existiam modelos estatsticos macroeconmicos que no tinham nenhum item para o sistema financeiro.  incrvel. Era como montar um modelo estatstico para fazer a previso do tempo sem incluir as nuvens. 

Por que as pesquisas eleitorais, nos EUA ou no Brasil, so anunciadas com margem de erro, mas a previso de crescimento do PIB tem um nmero s? 
Se os economistas divulgassem os nmeros reais, mostrando a amplitude da variao possvel, ningum lhes daria muita confiana, porque seriam nmeros excepcionalmente vagos. Ento, eles cravam um nmero. Os economistas e os empresrios no gostam muito de admitir a incerteza. Mas deveriam. O especialista de verdade  provavelmente aquele que diz "eu no sei". 

O interesse poltico interfere na qualidade das previses econmicas? 
Sem dvida. Historicamente, as projees econmicas menos confiveis nos Estados Unidos so feitas pela Casa Branca, e no importa se o presidente  um democrata ou um republicano. 

     Silver no superfatura a importncia dos nmeros ou da era do Big Data, mas  um sinal sintomtico que um estatstico esteja, em certo sentido, cumprindo a funo que j foi ocupada pelo chamado "intelectual pblico", aquela voz poderosa que se manifestava sobre todas as grandes questes do seu tempo. Parece que, no universo dos dados abundantes, teremos o "estatstico pblico". Silver  a raposa que orienta o debate. Quando os Estados Unidos sero positivamente a favor do casamento gay? Ele sabe: em 2024, quando cair o ltimo reduto da resistncia, Mississippi. Qual o melhor indicador para saber se um americano vota nos republicanos? "Se ele tem uma arma em casa." Considerando que as projees polticas o alaram ao estrelato,  surpreendente que Silver fale to pouco de poltica no livro. Em 2008, a campanha de Obama at recorreu a ele para testar algumas pesquisas internas. "Eu testei, informalmente. Mas no farei mais isso. Quero ser apenas observador da poltica, no participante." Em 2008, ele votou em Obama. Em 2012, no foi s urnas. Em agosto, vence seu contrato com o Times, mas Silver no sabe se vai renov-lo. No quer mais trabalhar apenas com previses polticas. Afinal, de tudo em que se envolveu de perto at agora, a nica coisa que Silver no previu foi seu prprio sucesso: "... Est sendo um pouco maior do que eu poderia imaginar" 


3. NO SULTANATO DE ERDOGAN
Mais ousado em seus planos de unir governo e religio, o premi turco, que enfrenta protestos populares, j multou canais de TV por critic-lo, restringiu as bebidas alcolicas e tentou ditar a vida sexual das mulheres.
NATHALIA WATKINS, DE ISTAMBUL

     Fronteira entre o racionalismo europeu e a sacralidade asitica com paisagens exuberantes de fundo. Assim foi apresentada a Turquia aos brasileiros, desde os primeiros captulos, na novela Salve Jorge. Um ano depois, quando a trama televisiva j se comprovara um fiasco de audincia, os protestos contra o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, iniciados no dia 28 de maio, mostraram que a imagem edulcorada do pas era igualmente um fiasco. A Turquia ainda  um destino turstico especial, mas tambm  um pas em que um brasileiro dificilmente se sentiria  vontade para viver. Na semana passada, por exemplo, foi aprovada uma lei que restringe o comrcio de bebidas alcolicas. Os restaurantes subsidiados pelo governo, onde as comidas so mais baratas, no vendem sequer cervejas. As mulheres evitam usar short nas ruas para no ser admoestadas pelos demais. Seis em cada dez delas sofrem violncia domstica. Casais que se beijam em pblico so frequentemente incomodados por patrulheiros religiosos informais, mas que agem sob a vista grossa da polcia. A imprensa hesita em divulgar crticas ao governo, com medo de represlias. Apenas por televisionarem imagens das manifestaes contra o premi, na Praa Taksim, quatro canais foram multados pelo Conselho Superior de Rdio e Televiso sob a acusao de "prejudicar o desenvolvimento fsico, moral e mental de crianas e jovens". 
     A islamizao da Turquia, evidente hoje, comeou discretamente h dez anos, quando o Partido da Justia e do Desenvolvimento (AKP), de Erdogan, chegou ao poder. O processo ocorreu por trs motivos. O primeiro  a inclinao pessoal do premi, que sempre foi um muulmano fortemente conservador. O segundo vem de um clculo eleitoreiro. Ao satisfazer a parcela mais religiosa da populao, que  maioria nas reas rurais, Erdogan espera assegurar a aprovao entre os eleitores mais devotos e juntar foras para mudar a Constituio. Ele poderia, assim, turbinar o cargo de presidente e candidatar-se ao posto na sequncia. Tem dado certo. Apesar dos protestos da classe mdia, Erdogan ainda conta com 62% de aprovao. O terceiro motivo  que os argumentos religiosos so muito teis para justificar a represso a quem quer que se oponha ao poder de Erdogan, o que termina por fortalec-lo. "A lgica por trs de sua poltica  atingir todos aqueles que podem desafi-lo", diz o historiador Jordi Tejel Gorgas, especialista em Turquia do Instituto Graduate, de Genebra. 
     Os militares esto entre suas principais vtimas, e por bons motivos. Ao criar a Turquia moderna, o general Mustafa Kemal Atatrk (1881 a 1938) submeteu a religio ao estado e limpou todos os vestgios islmicos dentro das Foras Armadas. Ao ingressarem no servio militar, obrigatrio, os jovens so educados dentro dos princpios de Atatrk. Aprendem que o Exrcito deve proteger a nao de todos os perigos externos, o imperialismo estrangeiro, e internos, como o islamismo militante e a minoria curda. Entre 1960 e 1997, os militares deram quatro golpes de estado, sendo que um dos governos foi deposto por suas tendncias islmicas. Isso acabou. Em uma dcada, Erdogan prendeu 10% de todos os generais do Exrcito. Os perseguidos eram todos seculares e bem-sucedidos dentro da corporao. "Ele substituiu todo o alto escalo por pessoas prximas ao seu partido", diz Hasan Saim ztrk, um juiz militar aposentado. Somente na Aeronutica, cerca de 800 oficiais foram investigados pelo servio secreto turco. Mais de 150 deles foram acusados de ser "moralmente impuros". Os crimes em questo so adultrio, jogatina e visitao de sites da internet como o Facebook.
     Alm de enfraquecer as Foras Armadas, a antiga fiadora do secularismo turco, Erdogan intimidou a imprensa. O primeiro-ministro interfere diretamente no noticirio e chega a sugerir nomes para cargos de chefia em jornais (como fez com o Milliyet, um dirio privado). As vozes crticas so julgadas e condenadas sob acusaes esdruxulas. A preferida  a de colaborao com o terrorismo. Um dos afetados foi Nedim Sener, que escreve sobre corrupo para o jornal Posta. Em algumas matrias, Sener exps as ligaes entre o governo de Erdogan e o lder muulmano radical Fetullah Glen, exilado nos Estados Unidos. "Desde ento, tornei-me um problema, pois o governo no suporta crtica alguma", diz ele. Em 2011, Sener foi preso com base em um documento falso segundo o qual ele teria colaborado em um livro que defendia terroristas. A polcia grampeou seus telefones e e-mails, porm no encontrou  provas para sustentar tal acusao. Sener foi solto, mas acredita que seu tormento no cessou. Seus detratores esto preparando um processo criminal que pode render quinze anos de cadeia. No seria uma surpresa. A Turquia hoje  o pas que mais tem jornalistas presos em todo o mundo. 
     No anseio de formar a sociedade islmica perfeita, Erdogan intrometeu-se na vida privada das mulheres. No ano passado, declarou-se contra o aborto e as cesarianas. "Eu me oponho aos partos por cesariana, pois sei que isso  feito com um propsito: evitar que a populao deste pas continue crescendo", disse Erdogan, num desafio  lgica cientfica. Ele defende a ideia de que cada mulher turca tenha no mnimo trs filhos. "Erdogan quer que as mulheres tenham um filho atrs do outro para mant-las ocupadas com tarefas domsticas", diz a sociloga Tugce Elliatli, de Istambul. Durante o governo do AKP veio tambm a exigncia de que a plula do dia seguinte s pode ser vendida com receita mdica. O aborto, legalizado em 1983, sofreu um revs. Desde que Erdogan anunciou publicamente sua inteno de criminalizar o procedimento, os hospitais pblicos passaram a dar desculpas para no realiz-lo. Em alguns, as enfermeiras ligam para os pais das mulheres que pretendem interromper a gravidez, sem o consentimento delas, para parabeniz-los e causar constrangimento. Muitas clnicas particulares deixaram de marcar consultas, para no atrair para si o revanchismo da burocracia estatal, cada vez mais dominada por islamistas. Os jovens da classe mdia urbana tm l seus motivos para chamar Erdogan de sulto.
     
AMEAADA DE MORTE 
A feminista turca Hda Kaya vota em Recep Tayyip Erdogan desde seus tempos de prefeito de Istambul, nos anos 90. "Ele prometeu que haveria democracia e que acabaria com a discriminao contra as mulheres", diz ela. Apesar de religiosa, Hda  uma firme defensora das liberdades individuais, como a de tomar lcool ou fazer aborto, e  contra a imposio da lei islmica. "A recente restrio  venda de bebidas  populista. Foi feita para agradar aos religiosos conservadores e manter a ambio de Erdogan de continuar no poder depois de 2015", diz a me de cinco filhos. Suas crticas ao primeiro-ministro renderam-lhe ameaas de morte. 

A LEI SEGUNDO O CORO
Juiz da segunda vara criminal infantil de Istambul, Ali Haydar Ycesoy vive na expectativa de ser transferido para alguma cidade nos confins da Anatlia. Ele  um dos sessenta togados que participam do sindicato da categoria. A entidade foi fechada pelo governo de Erdogan no passado. Segundo ele, juzes seculares, cujas mulheres no usam vu, no so promovidos a cargos importantes. Em contrapartida, colegas menos qualificados sobem rapidamente na carreira e, ento, passam a proferir sentenas conservadoras. "Acabou a diversidade de pensamento. A interpretao da lei agora segue os preceitos do Isl", diz Ycesoy.

TRATAMENTO IMORAL
Aos 13 anos, a curda Skran Sezgin desafiou a famlia conservadora ao se recusar a se casar com um homem de 40. Desde ento, foi espancada pelo pai, por primos e foi abusada por um tio. Saiu de casa, mas se envolveu com um homem, com quem teve um filho e que a maltratava. "Por medo, nunca procurei a polcia", diz Skran, hoje com 23 anos. Seu temor era justificado. Muitas mulheres so assassinadas por denunciar o marido. E o governo islamista, que tanto estardalhao faz por beijos entre namorados em pblico, no v nada de imoral no fato de a violncia domstica ter aumentado 1400% em sete anos.


4. A AL QAEDA E OS EUA ALIADOS?
O uso de armas qumicas por Assad levar os americanos a treinar os rebeldes srios, muitos ligados ao grupo terrorista.

     Encerrar uma guerra civil que j matou 93.000  um objetivo enobrecedor. Contudo, qualquer interferncia externa no mosaico de grupos em luta na Sria, do ditador Bashar Assad, provocar efeitos indesejveis. Na semana passada, o conflito, que tem o exrcito de Assad e os radicais xiitas do Hezbollah de um lado e os rebeldes sunitas e a Al Qaeda do outro, entrou em uma nova e ainda mais perigosa fase. Aps concluir que Assad recorreu a armas qumicas, o governo americano anunciou que vai entregar armas diretamente aos rebeldes. Em relatos de testemunhas e nos laudos mdicos, os americanos afirmaram ter evidncias consistentes de que substncias qumicas, sobretudo o gs sarin, que ataca o sistema nervoso e praticamente paralisa todos os  msculos do corpo, incluindo os pulmes e o corao, foram utilizadas diversas vezes no ano passado, matando entre 100 e 150 pessoas. O uso desse tipo de artefato era o que o presidente americano Barack Obama afirmara ser a "linha vermelha" que no poderia ser transposta pelo governo srio, sob pena de obrigar os Estados Unidos a entrar de maneira decisiva no conflito. O governo americano estuda criar uma zona de excluso area limitada, para impedir que aeronaves se aproximem da fronteira com a Jordnia. O objetivo  proteger os campos de refugiados e as zonas militares em que as tropas americanas vo treinar os rebeldes.  
     Distribuir armas no Oriente Mdio  uma estratgia questionvel desde a II Guerra Mundial. Os amigos de hoje quase sempre se transformam nos inimigos no futuro. No caso da Sria, o dilema  especialmente intrincado. Os americanos sabem que invadir o pas seria arriscado demais. Se o fizessem, cometeriam o absurdo de lutar ao lado da Al Qaeda. O grupo que fez os atentados de 2001, nos Estados Unidos, tem muitos de seus homens lutando contra Assad com a meta de instalar, em seu lugar, um regime ao estilo do Talib, do Afeganisto. Especialmente perigosos so os integrantes da Frente al Nusra, que j jurou lealdade ao egpcio Ayman al Zawahiri, o sucessor de Osama Bin Laden na liderana da Al Qaeda. A mera entrega de armamentos j  extremamente problemtica. Entre os rebeldes, h do pior e do muito pior. "'Cerca de 1000 deles so estrangeiros, o que representa entre 5% e 7% do total", disse a VEJA o socilogo Burhan Ghalioun, que foi o primeiro presidente do Conselho Nacional Srio, que rene a oposio secular a Assad no exlio. Os forasteiros fundamentalistas apresentaram-se voluntariamente para lutar contra Assad atendendo a um chamado religioso. Basta que o seu lder mude de discurso para eles redirecionarem seus fuzis. Os srios armados j revelaram quem so em diversas ocasies. Um deles filmou enquanto arrancava e mastigava o pulmo de um soldado de Assad. Na semana passada, em Aleppo, um grupo de rebeldes exigiu que um garoto de 14 anos que vendia caf lhes servisse de graa. Ele se recusou. "Nem se o profeta Maom voltasse a viver", disse o garoto. A resposta foi considerada uma blasfmia e ele, executado com um tiro na boca e outro no pescoo. Em breve, com a ajuda americana, esses rebeldes tero ainda mais poder de fogo. 


